Thursday, May 10, 2007

EGAS MONIZ ESTÁ VIVO!...

-

Tuesday, March 13, 2007

A propósito do livro "Egas Moniz e o Prémio Nobel", de Manuel Correia

[Apresentação do livro de Manuel Correia "Egas Moniz e o Prémio Nobel", na Sede da Ordem dos Médicos, em 9 de Março de 2007. Texto de Alexandre Castro Caldas]


Ligam-me a Egas Moniz laços de natureza diversa. Egas Moniz cursou Medicina em Coimbra com o meu avô paterno, que nunca conheci, mas de quem herdei ícones reveladores da boa relação que havia entre condiscípulos. Por outro lado, Egas Moniz foi ainda contemporâneo, nesse período, do meu avô materno que estudou Direito em Coimbra e de quem tive testemunho directo da vida de estudante. Ressalta desses relatos a singularidade da pessoa que já nesse tempo era escolhido pela Academia para ser seu representante e porta voz. Ficaram gravados na memória do meu avô os discursos feitos com rara eloquência e elegância.

Destaca-se desse tempo, agora nas memórias do próprio, a sua liderança da tuna académica sem ser capaz sequer de tocar afinadamente uma nota de música, pesem embora, os esforços havidos na sua infância no colégio com o sacrifício dos recreios que não conseguiram mais do que habilitá-lo com a capacidade de tocar algumas notas de flauta. A música nunca fez parte dos seus interesses, ao longo da vida.

O laço, porém, mais importante que me liga a Egas Moniz resulta do facto de ter eu ocupado, durante 12 anos, a Cátedra por ele criada, e de ter sido responsável pela Direcção do Centro de Estudos Egas Moniz mais alguns anos. Projectos mais ambiciosos levaram-me para outras paragens.

Por estas razões conheci Egas Moniz não só através da sua obra escrita, como por via da herança que fica no ar – nos objectos e nos espaços –, que vela por nós marcando um rumo, e a que nos habituámos a chamar Escola. Recordo com saudade Almeida Lima que uma vez visitei em sua casa, já perto do fim da sua vida, pedindo-lhe apoio para uma iniciativa relacionada com Egas Moniz, ao que ele respondeu: “Estou sempre disponível para os assuntos relacionados com Egas Moniz”. Aprendi a mensagem do discípulo dedicado e incorporei-a na minha prática de vida: por isso aqui estou.

A abertura dos arquivos da Fundação Nobel deu-nos acesso a mais uma peça de análise da vida e obra deste grande Mestre. Disso dá conta, de forma elegante e criteriosa, o Dr. Manuel Correia neste volume onde podemos encontrar, em anexo, a valiosa tradução dos textos que serviram de base às argumentações dos membros do Comité.

Permite este trabalho compreender um pouco melhor o enquadramento internacional do trabalho de Egas Moniz e a opinião que dele tiveram os que foram chamados a comentar.
Escreve o Dr. Manuel Correia na página 82:

“A mão do homem não é infalível, nem sequer a distribuir prémios ...” e assim argumentará ao longo do texto.

Mas devemos começar no princípio e competir-me-á contextualizar, em limites mais alargados, este texto que se foca no Prémio Nobel.

Posso começar por tirar dos próprios trechos de Egas Moniz o relato das conversas que teve com seu tio: o Abade de Pardilhó. Exaltava este as qualidades intelectuais de Egas Moniz à hora das refeições, interessado que estava em que ele seguisse a carreira eclesiástica e dizia-lhe: tu irás longe, com facilidade chegarás a Bispo, a Cardeal e quem sabe até a Santo Padre ...

Com o destino marcado desta forma desde a infância, que mais podia um jovem desejar da vida?

É, provavelmente neste seu conflito interno da troca da vocação religiosa pela Medicina, que Egas Moniz não deixou um dia de fazer uma conferência sobre o Papa João XXI.

Estava, por isto, estigmatizado para o sucesso e para a imortalidade.

O envolvimento na política parece ser o resultado natural de uma actividade estudantil muito participada e dos tempos conturbados que à sua volta criavam oportunidades e solicitações de protagonismo. Sempre desenvolveu a actividade política em paralelo com a preocupação das novidades da ciência médica. Escrever no início da carreira, um trabalho sobre a fisiologia e patologia da função sexual, é já arrojado na conservadora Coimbra da época, mas chamar-lhe “A vida sexual” representa a projecção do saber científico nos mecanismos de atenção da sociedade e, em particular, dos meios de comunicação social. À laia de parêntesis tenho que confidenciar que estou em crer que a publicação deste trabalho pode pretender justificar o encerramento das portas à vida de celibato a que o tio Abade o tinha destinado. Vida essa que, provavelmente, ele aprendeu a rejeitar quando na agitação dos seus terrores nocturnos recebia no quarto, a empregada da casa com a missão de o tranquilizar.

Importa, porém, salientar que este trabalho é também a procura da novidade. Por via deste livro, numa das últimas edições, falou pela primeira vez de Psicanálise como também é relatado no presente trabalho citando a recente obra de Pedro Luses. Mas, dizia eu, a procura da novidade, a sua projecção em linguagem compreensível pelo público em geral, e a vontade de ser o melhor, foram os combustíveis dessa fornalha, que ao longo de muitos anos soube aproveitar as oportunidades que a vida lhe foi dando.

A reforma da Universidade em 1911 foi uma das primeiras oportunidades que lhe permitiu vir para Lisboa ocupar uma Cátedra nova de uma Ciência que dava os primeiros passos. Importa salientar que a geração de professores da Faculdade de Medicina de 1911 foi, talvez, a mais brilhante de sempre. Foi nesse convívio de internacionalização que Egas Moniz se envolveu com empenho. Viajou muito para o centro dos acontecimentos Neurológicos na Europa Continental, porque infelizmente não falava inglês e, quando estava em Paris, ficava em casa de Babinski, uma das figuras mais ilustre da época. Lá conheceu Pierre Marie, Déjérine e tantos outros que deixaram o nome ligado à história da Neurologia.

É muito interessante percorrer os livros que serviram de estudo a Egas Moniz. Em muitas passagens estão notas e sublinhados que revelam as opções mentais do homem génio perante as propostas escritas. Pode dizer-se que a angiografia não nasceu subitamente num campo incultivado, ela resulta de múltiplas tentativas de criação de novas espécies que não chegaram à floração. Encontram-se ideias sobre a esclerose múltipla, tratamento de tumrores, neuropatias ...

A angiografia é o resultado da decantação desse rico substracto e representa uma história de grande tenacidade. Qual de nós seria capaz de levar, na mala do carro, cabeças de cadáver, desde o Instituto de Medicina Legal de Lisboa até ao hospital de Santa Marta, com o receio de que um acidente de automóvel revelasse o conteúdo da caixa e lá, pedir aos técnicos que as radiografassem para que se estudasse a anatomia normal dos vasos do cérebro?

Não vamos aqui relatar todo esse percurso mas importa, na verdade, atentar no que foram os comentários de Jacobeaus à candidatura ao prémio. É importante notar que a proposta nasceu, da envolvente nacional e do interesse em ter um laureado com o Nobel. São os Professores Portugueses que o propõem as duas primeiras vezes. Aqui a competição com Walter Dandy e a sua ventriculografia é difícil e desigual no que respeita à envolvente política mundial e opta-se por não atribuir o prémio a um método de visualização do cérebro – regra que viria recentemente a ser quebrada com a tomografia axial computorizada. A argumentação é pobre à luz dos conhecimentos actuais mas temos que aceitar que haveria insuficiente informação para fazer melhor no primeiro parecer. O mesmo não se pode já dizer do segundo, em que o número de publicações existentes na época era já de molde a augurar um interessante futuro.

Uma nota interessante é feita neste segundo parecer de Jacobeaus ao uso do torotraste e aos seus receios. Neste ponto ele teve razão, visto que esta substância se veio a revelar nociva, quer localmente no ponto da injecção, quer para o fígado e, constituiu um argumento de peso para a facção da Faculdade de Medicina que constantemente se esforçava em desmerecer o interesse do trabalho de Egas Moniz.

Não posso deixar aqui de comentar que no meu curso de Anatomia Patológica, no ano de 1969, tive uma aula inteiramente dedicada ao fígado do torotraste. Na altura não compreendi o interesse clínico do tema, pois estava claramente fora de uso esta substância. Hoje compreendo que simbolicamente representava o que posso designar por “enquistamento da inveja”.

A análise da leucotomia é, porventura, o tema mais difícil de tratar. Se, do meu ponto de vista, o trabalho da angiografia provou na história o seu enorme valor e teria sido merecedor do galardão e me espanta a natureza das argumentações, espanta-me ainda mais tudo o que se disse e escreveu à volta da leucotomia.
Toda a argumentação utilizada resulta da análise de resultados clínicos. Ora isto é, sem dúvida, o componente mais fraco do método proposto. A história contemporânea da ciência deverá julgar a leucotomia, não pelo seu impacto na cura de doentes, que sabemos que foi modesto, embora de alguma valia face ao deserto de outras opções, mas a história está a julgá-la como um salto qualitativo no conhecimento da forma como o cérebro sustenta a actividade mental. Pesem, embora, os desenvolvimentos actuais da psicocirurgia, sobretudo com estimulação cerebral profunda.

Toda a argumentação de Essen-Möller e de Olivercrona negligencia o trabalho da escola alemã, onde desenvolveram trabalho Meynert, Lipman, Wernicke e Freud e trabalho posterior de Goldstein. Estes autores vinham discutindo com argumentos válidos o substrato que serviria de argumentação a Egas Moniz para a leucotomia. Podemos mesmo dizer que a leucotomia acabou por ser a confirmação experimental das hipóteses resultantes de estudos de casos com lesão cerebral.
É talvez Barahona Fernandes em Portugal, o único que, no meio da adversidade das contestações de Sobral Cid e outras figuras da psiquiatria da época, que entende o verdadeiro significado científico do trabalho de Egas Moniz. Barahona Fernandes fez a sua preparação psiquiátrica na escola alemã. Conhecia bem toda essa rica literatura que os falantes de língua inglesa desconheceram durante muitos anos, mas era então um jovem em início de carreira que dificilmente conseguiria fazer valer os seus argumentos.
Estou convicto que Egas conhecia também toda esta literatura em língua alemã, é possível que não tivesse tido conhecimento do caso de Phineas Gage que António Damásio foi buscar para ilustrar o seu primeiro livro onde dá valor ao trabalho de Egas Moniz como contributo científico real. De qualquer forma, a proposta da leucotomia não foi nunca compreendida pelos pares de Egas Moniz em Portugal mas é sem dúvida o resultado de uma reflexão profunda sobre as ciências do cérebro e sem dúvida também, de vanguarda nos conhecimentos da época. Foi infelizmente mal relatada e reduzida a duas ou três referências como a dos macacos neuróticos de Fulton ou a dos tumores frontais. Penso que faltou a Egas Moniz nesse fim de vida o alento para fazer melhor.
Penso, por isso, que as razões aduzidas para não atribuir o prémio à angiografia são erradas como são também erradas as razões para o atribuir à leucotomia. No entanto, há toda a razão para atribuir o Prémio Nobel ao Homem de Ciências que foi Egas Moniz.
Volto à frase que citei do Dr. Manuel Correia:
“A mão do homem não é infalível, nem sequer a distribuir prémios ...”
E posso acrescentar aquilo que é censo comum na nossa cultura:
“Deus escreve direito por linhas tortas.”

Uma palavra final sobre a polémica gerada recentemente à volta da atribuição do prémio. Quanto a mim, resulta da ignorância e necessidade de protagonismo que se pode conseguir pelas boas e pelas más razões. A apresentação do assunto e a discussão que o Dr. Manuel Correia fez neste livro, parece-me bem apropiada e só lamento que o Comité Nobel se tenha dado ao trabalho de responder da forma como respondeu.
Afinal, trata-se só de um Prémio que é capaz de estimular as boas pulsões, mas não deixa de gratificar também a vaidade do Homem.

Lisboa, 9 de Março de 2007

Alexandre Castro Caldas
acastrocaldas@ics.ucp.pt