Friday, February 10, 2006

Documentos Secretos (1)

Fundação Nobel

Parecer sobre Egas Moniz (1928)

Hans Christian Jacobaeus

Material of the Nobel Archives was kindly provided by the Nobel Committee for Phisiology or Medicine

(Material dos Arquivos Nobel gentilmente cedido pelo Comité Nobel de Medicina ou Fisiologia)



Egas Moniz, professor em Neurologia na Universidade de Lisboa, é proposto como candidato ao prémio Nobel pela sua descoberta da “Encephalographie artérielle”.

A descoberta de Moniz consiste em injectar na artéria carótida uma solução de iodeto de sódio a 25% com exposição simultânea do crânio aos raios X, através da qual o sistema arterial do cérebro aparece nítido e bonito em imagem radiográfica.

O autor experimentou a técnica em cães e chegou à conclusão de que dos diferentes sais solúveis em água testados, o melhor era o iodeto de sódio, embora seja possível utilizar outras soluções.
No ser humano também foi experimentado este método segundo a técnica seguinte. A artéria carótida é dissecada, uma agulha fina é espetada na artéria, a parte central da artéria é ligada momentaneamente e nela se injectam de seguida 5 a 6 cc de iodeto de sódio a 25%, feito isto poder-se-ão tirar radiografias do crânio que mostrarão imagens bonitas da rede arterial de vasos sanguíneos da região da artéria injectada. Imediatamente a seguir liberta-se a artéria carótida da ligadura, e a circulação é restabelecida.
Tanto quanto é do meu conhecimento, só 4 ou 5 casos estão descritos em que este método foi praticado e num destes casos foi possível fazer o diagnóstico localizado de um tumor, que segundo o autor não teria sido possível diagnosticar com outros métodos (contudo não tinha sido feita a ventriculografia).
A injecção da solução de iodo é dolorosa, sendo por isso necessário administrar morfina ou atropina antes da operação. Nestas condições parece que as dores são suportáveis. Num dos casos surgiram convulsões durante 3 minutos depois da injecção.
Consegue-se um diagnóstico localizado observando as diferenças entre a rede de vasos sanguíneos do lado saudável e do lado doente. No caso presente a artéria de sylvius tinha sido deslocada para cima no lado doente. A diferença de aspecto nas radiografias enviadas em anexo em dois dos casos publicados era nítida.
Desconheço qualquer verificação do método feito noutra clínica.
Não existem dúvidas sobre o grande interesse do método de Moniz. São também prova disso as declarações entusiasmadas de diversos neurologistas franceses presentes na recente conferência de Moniz em Paris. Contudo o método está ainda pouco comprovado para poder ser considerado merecedor do Prémio Nobel. O diagnóstico apenas foi verificado num caso através de operação e num outro através de dissecação. É também muito difícil verificar se o método é tão inofensivo como o seu autor sustenta em tão poucos casos publicados. É também ainda desconhecida a extensão da sua utilidade.
Por tudo isto, é a minha opinião de que não existe presentemente razão para incluir a “Encephalographie artérielle” de Egas Moniz numa candidatura.

Estocolmo a 10/4 de 1928.
H. C. Jacobaeus.

Traduzido do original sueco
Cortesia de Teresa Guerra