Sunday, August 21, 2005

A Sociedade em Rede em Portugal




A Sociedade em Rede em Portugal(*)
Gustavo Cardoso, António Firmino da Costa, Cristina Palma Conceição, Maria do Carmo Gomes.
Campo das Letras
Porto
2005
(342 páginas)

A principal virtude do estudo publicado sob o título de «A Sociedade em Rede em Portugal» é a de corresponder à produção de conhecimentos acerca das mudanças que se têm operado desigualmente no mundo, comparando resultados obtidos em Portugal com outros de diferentes proveniências. À cabeça vem a Catalunha, cotejada com Singapura, Finlândia e EUA. Esta selecção obedece a uma tipificação das Sociedades em Rede, influenciada pela composição da equipa internacional em que Manuel Castells desempenha um papel preponderante. Os tópicos centrais da teorização sócio-histórica passam pelos seus trabalhos anteriores e em curso, designadamente a elaboração do conceito de Sociedade em Rede, apresentada como modelo que sucede à Sociedade Industrial, dela emergindo e com ela coexistindo num movimento de gradual superação.
Todavia, os autores do estudo recordam que é apenas e ainda uma minoria da população do planeta que está directamente envolvida na Sociedade em Rede (cerca de 19%), à semelhança do que ocorria há pouco mais de dois séculos com a emergência, apropriação e adaptação da plataforma tecnológica da industrialização.
De qualquer modo, a Sociedade em Rede passou a constituir a «estrutura social dominante do planeta» dando origem, paulatinamente, a «outras formas de ser e de existir». Assim, de acordo com os interesses dominantes, organizações e lugares são incluídos ou excluídos da Rede, passando a ligar-se ou a desligar-se dela de acordo com as estratégias vigentes. É pela observação dos modos de realização económica, social, cultural e política das últimas décadas, que os autores concluem que a internet se está a converter na plataforma tecnológica da Sociedade em Rede.
Avançando para o caso português, surgem, em destaque, os contrastes também amplamente referidos por outros autores, revelando ainda «vestígios arcaicos», a par de «traços e dinâmicas de modernidade», constituintes das Sociedades Informacionais. Uma tal polaridade, profusamente ilustrada por diversos estudos de diferentes autores, põe em relevo o carácter dual do desenvolvimento da sociedade portuguesa, levando os autores a sustentar a tese da transição. Portugal é, face aos critérios que definem uma Sociedade Informacional, uma sociedade em transição de um modelo proto-industrial (de modernidade inacabada; de mais horas de trabalho, comparando com outros países da UE, e menor produtividade, etc.).
Lançando mão a numerosas fontes acerca do processo de transformações operadas na sociedade portuguesa nos últimos anos, os autores actualizam esse conjunto de observações com os resultados de um inquérito realizado em 2003 (CIES: Inquérito Sociedade em Rede em Portugal).
A par de uma hábil contextualização histórica, económica, social e política, na qual as principais fragilidades da sociedade portuguesa são postas em destaque (os vários défices, as assimetrias, o dualismo socio-económico), o estudo desdobra, sistematiza e interpreta os resultados do referido Inquérito, traçando o perfil dos utilizadores da internet em Portugal. Em síntese, os homens utilizam-na mais do que as mulheres; os indivíduos solteiros mais do que os casados; e os mais jovens e mais escolarizados levam a palma sobre todos os outros. Estas duas últimas variáveis (idade e escolaridade) contribuem para a maioria do potencial estatístico explicativo da discriminação principal. Os autores detectam, a este respeito, um «fosso geracional», teorizando sobre a clivagem etária dos indivíduos nascidos antes e depois de 1967, tendo atingido a maioridade antes ou depois da revolução do 25 de Abril de 1974.
O texto, após a introdução teórica e contextualizadora, fornece e interpreta os resultados do Inquérito aplicado no âmbito do CIES, passando a analisar relativamente à Internet, Padrões de Uso, Redes de Sociabilidade, a relação com os media, Referências identitárias, práticas de cidadania, a transição para a Sociedade em Rede (clivagem geracional) e Projectos de Autonomia.
Para além da abundante informação que sistematiza e das reflexões teóricas e metodológicas que aduz, o texto tem o mérito de discutir, fundamentadamente, algumas visões estereotipadas acerca da utilização da internet:
- confirma que a nova plataforma tecnológica não debela, por si só, as assimetrias e desigualdades, acentuando, pelo contrário, por via da info-exclusão, as diferenças culturais e cognitivas em ordem à adaptação às novas tecnologias;
- constata que entre os cibernautas portugueses e as respectivas redes de familiares, amigos, vizinhos e outros contactos, se estabelecem relações frequentes, estáveis e duradouras, sem prejuízo aparente das relações presenciais, afastando, deste modo, a suspeita de que os cibernautas, por excesso de dedicação à navegação virtual, prejudicam as suas redes de sociabilidade. As conclusões do estudo apontam, até, que são os utilizadores frequentes da internet que integram as redes de sociabilidade mais alargadas;
- sustenta que o tempo despendido pelos cibernautas não parece afectar o desenvolvimento quotidiano de outras actividades, com excepção do tempo gasto a ver televisão, que acusa uma diminuição mais sensível.
- destaca que são cibernautas os mais activos e mobilizados nas movimentações sociais e políticas mostrando, paralelamente, um maior convencimento de que vale a pena tentar influenciar o teor das decisões políticas.
Assumindo aquilo a que os autores chamam um «protagonismo potencial», são também os utilizadores da internet que maior predisposição apresentam para a atribuição de importância à acção cívica e política.
Se nos recordarmos da crescente importância que o e-learning e outras formas de formação e auto-formação estão a assumir, ou se dermos uma olhadela ao que está a acontecer na denominada blogosfera, poderemos avaliar melhor o bloqueio que a «fractura digital» representa.
O texto em apreço constitui um excelente contributo para melhor conhecermos e melhor reflectirmos acerca de muitas das questões envolvidas.

Manuel Correia

(*) Recensão publicada no Le Monde Diplomatique (Edição Portuguesa), nº 77, Ano 6, Agosto de 2005, pág. 18.