Sunday, May 01, 2005

Margaridos e Alemões



«Fronteiras da Identidade»
O «outro» na Construção de Um Lugar na Serra de Grândola
Manuela Raminhos
CELTA Editora
Oeiras, 2004 (135 páginas)

[Recensão publicada na edição de Maio da versão portuguesa do Le Monde Diplomatique]


Assente sobre o texto da tese de mestrado em antropologia, com trabalho de campo a decorrer em Santa Margarida da Serra, - concelho de Grândola - Manuela Raminhos produz um conjunto de reflexões acerca de uma das perspectivas -chave das ciências sociais e humanas: a identidade.


Depois de tornar perceptíveis as vicissitudes do início do trabalho, no terreno, confidencia como foi superando as dificuldades e estabelecendo ligações, num efeito de intimidade que permite espreitar alguns aspectos do dia a dia do trabalho antropológico registado no diário de campo. Em seguida, por entre os capítulos que estruturam a monografia, contextualizados histórica e sociologicamente, começam a distinguir-se as «fronteiras» da tensão principal em torno da qual a autora construirá o seu objecto. Começam, então, a desenhar-se, em diferentes espaços da freguesia de Santa Margarida da Serra, centrados na aldeia, três círculos concêntricos. Atravessando-os, os que lá nasceram ou há muito foram adoptados, os que vieram de fora em busca de um lugar aprazível para se descontraírem e descansarem durante as férias e fins-de-semana, e os estrangeiros que desistiram de viver nas grandes cidades dos seus países e vieram em demanda de um novo destino. É entre estes últimos - os alemões - e os primeiros - os margaridos - que se vai desenrolar o jogo das identidades. As designações de alemões e margaridos, tal como a autora faz questão de esclarecer desde o início, não decorrem de qualquer expediente com o intuito de simplificar as anotações. É assim que se vêem e se intitulam a eles próprios os habitantes de Santa Margarida da Serra: margaridos; e é alemões que chamam a todos os estrangeiros que se têm dirigido para aquela zona, alemães ou não, passando muitos deles a residir nos montes em redor da aldeia. Sem embargo de uma caracterização sócio -demográfica competentemente cuidada e da compulsão de outros trabalhos pertinentes (pela sua proximidade temática e teórica, citados amiúde ao longo do texto), as designações de margaridos e alemões, desde logo, contêm todo um programa acerca da dinâmica identitária.

O primeiro traço identitário reporta-se ao laço linguístico que une as gentes de Santa Margarida da Serra, contestando qualquer normalização administrativa que deveria provavelmente dar em santamargaridenses. Não. São apenas margaridos. Porquê? Porque, como enfatiza uma das mulheres inquiridas, «A santa está na igreja e nós vamos a todo o lado.». Esta escolha revela um dos aspectos fulcrais da construção da identidade, pondo em realce a sua vertente selectiva e o seu carácter de negociação permanente. Os outros, alemães ou não, são atrelados a um lugar imaginário, parecido com o nome de uma país estrangeiro associado à 2ª Grande Guerra do Século passado - a Alemanha - perdendo, nos termos dessa designação o direito às suas identidades originais (franceses, belgas, etc) e passando a ser chamados simplesmente alemões. Temos assim os margaridos - nós, mesmos - e os alemões - os outros, eles.


É este confronto entre margaridos e alemões que fornece uma das dimensões mais interessantes da análise de Manuela Raminhos. Numa região económica e demograficamente deprimida, a vinda de estrangeiros que não estão apenas de passagem, mas tendem a demorar-se, procurar casa para viver e uma actividade profissional, desperta nos margaridos o sobressalto da mudança e da transformação, pois se o que somos é em grande parte o que nos liga aos lugares, ao que fazemos e produzimos e, igualmente, o que nos une ou separa, aqueles outros, ao chegarem com propósitos de se demorar, alteram tudo. É por isso necessário rememorar (reinventar) a história e os costumes dos primitivos margaridos contra a ameaça de, pouco a pouco, se virem a confundir com os outros. É disso, fundamentalmente, que a autora trata.

Magistralmente.