Manuel Correia[1]
Egas Moniz (EM), neurologista, político, ensaísta nascido em Avanca em 1874, era oriundo de família de nobreza agrária, proprietários rurais enfrentando grandes dificuldades financeiras. Após período de grande escassez de recursos, empreenderá um trajecto social ascendente que o situará na classe alta, na transição da Monarquia para a República, por via do curso universitário, do envolvimento político e da especialização médica. Dedicar-se-á também, mais tarde, ao empresariado agro-industrial com relativo sucesso. Tinha um sentido agudo das diferenças sociais e partilhava com muitos dos seus correlegionários republicanos e da dissidência progressista aquilo a que Hermínio Martins chama o “complexo iluminista”[2].
É importante, para compreender a auto-representação de EM, descortinar como se atribui a si próprio uma predestinação de carácter místico que atravessa toda a sua narrativa, reservando-se sempre um papel de esclarecedor de auditórios e líder de grupos destacado de entre os melhores.
Reunindo elementos relevantes quer do político, quer do cientista, damos conta, neste 1º artigo, do que nos parece serem as três principais tendências de representação histórica de EM, discutindo dois dos mais apelativos enigmas monizianos - o político e o periférico - avançando uma hipótese de integração.
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Conhece-se melhor acerca de Egas Moniz - de seu nome completo António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz - a sua dimensão de neurologista distinguido com um Prémio Nobel da Medicina ou Fisiologia em 1949.
A sua faceta política é menos conhecida, apesar da importância do protagonismo evidenciado pelo seu desempenho no Parlamento, antes e depois da implantação da República; nos cargos de embaixador e de Ministro dos Negócios Estrangeiros durante o consulado de Sidónio Pais; na fundação do Partido Centrista; e na chefia da Delegação Portuguesa à Conferência de Paz de Versalhes que regulou o termo da I Grande Guerra.
Passados 130 anos sobre a data em que nasceu, em Avanca, no concelho de Estarreja, a sua projecção histórica parece desenhar-se sob três perspectivas principais que mantêm entre si uma tensão surda: uma, que tende a omiti-lo; outra, que procede à sua glorificação, em consonância com a auto-imagem que EM fixou designadamente nas suas obras de carácter autobiográfico; e, finalmente, uma outra, que assenta em posturas críticas, reconhecendo a importância de o considerar na rede de relações em que se inseriu, procurando avaliar a enorme capacidade de adaptação de que deu provas face às mudanças sucessivas que foi enfrentando ao longo da vida.
Três perspectivas
A primeira perspectiva - a da omissão - tem provocado, ao longo do tempo, um bloqueio objectivo da imagem de EM, a partir de posições diferentes, na origem, mas convergentes no que toca à omissão.
Este enfoque complica-se na medida em que o próprio EM, desvalorizando claramente a sua actividade política e pretendendo avantajar-se e ser lembrado pelo reconhecimento científico com que foi distinguido, contribuiu parcialmente para deixar na sombra uma fase notável da sua vida que se articulou com o fim da Monarquia - ditadura de João Franco e regicídio - e a implantação da República, - da República Velha à chamada República Nova.
O movimento de Gomes da Costa, em 28 de Maio de 1926, coincide com uma fase da vida de EM em que já se devotara por inteiro à clínica e à investigação científica, tendo praticamente abandonado a política activa.
Não sendo exacta a ideia de que o Estado Novo lhe criou dificuldades, escondendo ou desvalorizando os resultados da actividade científica de EM, herdámos, no entanto, por via da apropriação simbólica que dele fizeram também alguns sectores da Oposição Democrática, a impressão de que o regime fascista o teria ostracizado. Todavia, as indicações disponíveis apontam para uma relacionamento mais matizado de EM com o salazarismo. Nem o Estado Novo deixou de lhe prestar a atenção que entendeu adequada, não impedindo a imprensa da época de cobrir e ilustrar profusamente os momentos de consagração da obra moniziana, nem EM se coibiu de tirar vantagem dessa coexistência pacífica, com vantagens para ambas as partes.
O bloqueio omissor da sua figura torna-se efectivo mais tarde e não parece decorrer da oposição entre o político e o cientista, que EM e muitos dos seus panegíricos resolveram apagando, quase por completo, a dimensão política da sua biografia. A oposição que virá explicar o evitamento histórico de EM, estabelecer-se-á entre o EM da Angiografia Cerebral e o EM da Leucotomia Pré-frontal.
EM apresenta internacionalmente provas das primeiras arteriografias cerebrais em 1927. A imprensa da época valoriza o trabalho de EM, sublinhando o carácter inovador e o alcance diagnóstico desta nova técnica. O prosseguimento das pesquisas desembocará então na Angiografia Cerebral que permitiu visualizar não apenas as artérias, mas igualmente, as veias do cérebro in vivo.
Nomeado para candidato ao Prémio Nobel (cinco vezes, pelo menos, em 1928, 1933, 1937, 1943 e 1944)[3], foi considerado pelo júri, relativamente às duas primeiras nomeações, que uma técnica de diagnóstico que dependia da injecção de um líquido opacificante nas carótidas de tal modo que a rede cerebral vascular se tornasse visível aos Raios X, não preenchia os quesitos de uma descoberta científica original. Aliás, Röntgen, o inventor dos Raios X ganhou o primeiro Prémio Nobel da Física, em 1901, e a primeira nomeação de Egas Moniz apresentava o método artereográfico como um desenvolvimento da radiologia.
Em 1936, EM torna conhecidas as suas “tentativas operatórias”[4] com base na realização de 20 leucotomias pré-frontais, executadas sob a sua direcção, pelo cirurgião Almeida Lima.
Mais uma vez, a imprensa portuguesa e internacional, divulgaram amplamente o que se acreditava poder ser o tratamento e a cura de “certas psicoses”. E é em consequência da aceitação do poder curativo ou paliativo da leucotomia pré-frontal, que o Comité Nobel virá a atribuir o Prémio a EM, ex-aequo com Walter Hess[5], em 1949.
Esta aparente indefinição do pronome - certas psicoses - não levantou problemas na época. A própria formulação que a Academia Sueca utilizou para justificar a atribuição do prémio, continha essa mesma expressão. Mas na segunda metade do século XX, com o surgimento dos neurolépticos, por um lado, e as campanhas mediáticas, suportadas por correntes de opinião opostas à continuação generalizada da lobotomia, os fundamentos teóricos e a avaliação dos resultados a médio e longo prazo da leucotomia pré-frontal, passaram a ser encarados com muito maior reserva.
De então para cá, à medida que prosseguiu a investigação histórica sobre as circunstâncias em que foram decididas e executadas as lobotomias, foram surgindo numerosos indícios de que o seu uso foi, em muitos casos, reprovável.
No final do século passado, a condenação da lobotomia estabelecia-se sobretudo em alusão a práticas desenfreadas como a seguida pelo neurocirurgião norte americano Walter Freeman. Com o posterior avanço teórico e tecnológico das neurociências, o capítulo da psicocirurgia (tratamento cirúrgico de afecções psíquicas) e da lobotomia (assumidamente de génese leucotómica), ficaram para trás.
EM que ainda teve oportunidade de publicar em 1954 o texto de uma conferência em que respondeu a um leque de questões suscitadas a propósito da leucotomia pré-frontal, - A leucotomia está em causa[6] - morreu no ano seguinte.
Face a dificuldades de abordagem de uma figura tão densa e complexa, cuja história de vida e experiência histórica comportam elementos fundamentais para a compreensão dos movimentos sociais e políticos do seu tempo, houve quem optasse pelo silêncio. Um silêncio onde se misturam certamente motivações desencontradas: de embaraço (o político na sombra do cientista); avaliação negativa de alguns aspectos da sua prática científica (o bom EM da Angiografia Cerebral contra o mau EM da leucotomia pré-frontal); e convicção de que a recusa em debater as dimensões polémicas que envolvem a sua figura é suficiente para abafar os detractores e críticos sem beliscar a projecção e a grandeza do génio.
A constatação das omissões é feita verificando em que circunstâncias o seu nome deveria “obrigatoriamente” ter sido referido e não o foi. Disso é exemplo, entre outros, os 25 números da revista Colóquio de Ciências (1988-2000). EM não é aí referido apesar das “oportunidades” patentes. Não é citado nem aludido nos artigos acerca da História da Academia de Ciências - de que foi membro e Presidente - nem é mencionado em nenhum outro artigo cuja temática tenha a ver com domínios das neurociências.[7]
A segunda perspectiva - a glorificadora - traduz-se num registo venerador e justificativo, enaltecendo o homem e a obra, tomando a sua defesa e tentando explicar alguns dos enigmas historiográficos que dele herdámos quer no plano político quer no científico.
Há uma bibliografia abundante de próximos e distantes admiradores, rendidos à singularidade do homem e à excepcionalidade da obra.
De um modo geral, essa literatura põe em destaque a carreira científica, as realizações e as distinções de que EM foi objecto, recortando um perfil heróico a partir de uma actividade densa e diversificada, atento a numerosos aspectos da cultura, da ciência às artes. De acordo com a vontade expressa do próprio EM, o período de intensa dedicação à política, é omitido ou meramente aflorado.
O registo venerador não deixa porém de fornecer informação importante acerca de como os próximos e distantes admiradores o viam, coligindo observações que pela sua diversidade acabam por constituir um leque variado de testemunhos que ajudam a reconstituir o quadro das representações que se faziam de EM.
Apreciações sobre a sua faceta mística, confidências acerca de inspirações científicas que EM evitou confirmar, testemunhos sobre o secretismo de que rodeava o curso das suas investigações, ressaltam dessa literatura com a garantia de provirem de admiradores seus e de comporem sem malícia uma figura humana flexível e contraditória.
A terceira perspectiva - a perspectiva crítica - começa por ser pouco óbvia. As observações discordantes acerca da avaliação dos resultados da leucotomia pré-frontal eram raras e pouco divulgadas no início.
Quer em Portugal, quer no estrangeiro, a discussão acerca dos fundamentos, avaliação dos resultados, implicações filosóficas, inquietações morais, religiosas e dúvidas de carácter científico e ético foram aparecendo.
O surgimento de trabalhos orientados por uma perspectiva crítica, procurando superar enviesamentos quer por via do endeusamento quer pela diabolização, orientados para a interpretação equilibrada das relações de EM com os diferentes contextos em que interagiu, pôs em evidência a capacidade de adaptação de um homem que delineou cuidadosamente as suas estratégias, por vezes determinado e implacável, conhecedor dos meandros das comunidades científicas, firmemente empenhado em deixar obra feita e, por isso, gerindo a projecção do seu trabalho e cuidando da sua imagem com uma meticulosidade notável.
Dois enigmas
Comparando diferentes fontes, podem ser enumerados alguns factos e circunstâncias que EM decidiu não referir nos escritos de carácter político que publicou[8]. A evolução das reflexões e convicções que o levam da dissidência monárquica à convicção republicana e, daí, a entusiasta da República Nova, deixando pelo meio a sua iniciação na Maçonaria, o seu envolvimento no golpe sidonista e um ou outro duelo.
É curioso notar que o cientista apresenta traços comportamentais semelhantes aos que evidenciou enquanto político: um cálculo estratégico, uma determinação enérgica não isenta de precipitação, uma confessada predilecção pela notoriedade e uma prática frequentemente resguardada pelo secretismo de inspiração conspirativa.
Estes aspectos da sua personalidade, aliados à riqueza da sua cultura e experiência política ajudam a explicar, em boa parte, um dos principais enigmas monizianos: como pôde um país periférico, com um sistema científico incipiente, debilitado pelas políticas restritivas do Estado Novo, “produzir” um cientista cuja obra, reconhecida internacionalmente veio a ser premiada com um Nobel, apesar de alguns aspectos controversos que desde então, como ainda hoje, suscitam dúvidas?
Para ensaiar uma resposta fundamentada, somos tentados a reformular a questão. EM conhecia bem as potencialidades científicas distribuídas pelos espaços geopolíticos. Complementou a sua formação de neurologista estagiando em Bordéus, Paris e Bruxelas, com alguns dos mais proeminentes neurocientistas do seu tempo. Geria com perícia a sua rede de relações e preocupava-se sistematicamente com a distribuição das informações descrevendo a sua actividade.
Assim, poderíamos formular a questão de outro modo: como conseguiu um neurologista português, apesar de tudo, - apesar do défice científico nacional - uma notoriedade elevada e sucessivas nomeações para o Prémio Nobel?
A resposta reside no seu talento, esforço, empenhamento e persistência, antes de mais, mas igualmente no modo como o seu investimento (estratégia e determinação) se conjugou com as representações positivas que dele se fizeram, tanto nas comunidades científicas como, em geral, por obra do esforço publicista que suscitou, alimentou e frequentemente orientou de acordo com os seus propósitos.
É nessa confluência de representações partilhadas, que muitos dos seus pares, mestres, dirigentes políticos, e concidadãos dele se apropriam para engrandecerem as suas próprias identidades.
O Prémio Nobel, precedido pelo Prémio de Oslo, veio coroar simbolicamente esse encontro histórico em que a urgência do reforço identitário nacional, com a quota parte de incremento da autoestima que acarretou para Portugal e para os portugueses, tornando o elogio de EM num imperativo patriótico, fragilizando a assimilação crítica das problemáticas associadas à leucotomia pré-frontal e à lobotomia.
Era claro para EM que a reputação científica passava pelos grandes centros de produção científica com efectiva influência internacional.
A afirmação identitária deste investigador, aspirando a progressões sucessivas dos seus estatutos académico, político e científico, foi sempre atravessada pela necessidade da deslocação (interna e externa), da viagem, da visita, tudo isso programado sobre um roteiro preciso, esquematizado de acordo com uma estratégia bem definida.
De certo modo, o mundo que Egas Moniz quis visitar, conhecer melhor, e incluir no seu roteiro específico, era um mundo já duplamente “descoberto”, em virtude das suas actividades científicas e políticas anteriores, designadamente resultantes de visitas de estudo destinadas a examinar os feridos de guerra[9], e da sua passagem pelo posto de embaixador e pela pasta ministerial dos Negócios Estrangeiros; era também um mundo cujos pontos de aproximação estavam intimamente associados às experiências mais avançadas no campo da neurologia.
Ao associar-se, de perto, aos cientistas de nomeada no seu campo, EM procedia à complementar construção das autoridade e notoriedade, reforçando a sua posição em Portugal e, simultaneamente, constituindo-se em interlocutor avisado no plano internacional.
Ao enumerar aqueles que considerou seus mestres, Egas Moniz enfatiza frequentemente a importância da internacionalização. De Augusto Rocha, por exemplo, diz ser um “dos poucos mestres viajados”[10]. A implícita censura ao imobilismo dos “outros”, acantonados na rotina imobilista, torna-se por vezes mais expressiva nos seus textos, constantemente mencionada como parte integrante do seu critério de avaliação da competência científica.
Num elogio misto do experimentalismo, reflexão própria e contacto internacional, proclama: “As Universidades não podem nem devem ser constituídas por aqueles que apenas se contentam com a ciência feita”[11]. Sugere, assim, que a avaliação dos professores deveria ser ponderada de modo, a que a inquirição acerca dos contactos científicos internacionais ocupasse um lugar de relevo, mostrando a sua preferência pelos que
(...) continuavam a receber estímulos dos centros científicos estrangeiros, convivendo com mestres competentes e dinâmicos (...)[12]
A par das numerosas referências a Ramón e Cajal de cuja obra reteve não apenas a concepção neuronal mas igualmente algo do método contrastante por ele posto em prática, Egas Moniz aponta a França como lugar de eleição, onde se há-de deslocar com o intuito de, primeiro, se especializar e, depois, por razões ligadas quer à actividade política, quer à necessidade de afirmação, defesa e consolidação das suas posições no campo da neurologia e da psico-cirurgia. No livro Confissões de um Investigador Científico, que o próprio EM considera a sua melhor obra, confirma-o:
O que sou em ciência devo-o à França, aos seus Mestres, ao seu ensino e especialmente ao estímulo que imprimem aos frequentadores das suas clínicas para estudarem e progredirem.[13]
É esse o primeiro eixo estruturante das rotas preferenciais que EM desenhou para se conferir a si próprio e ao seu trabalho uma dimensão internacional, uma visibilidade tão nítida como a que pretendia para a sua angiografia cerebral. Com a divulgação dos primeiros resultados da arteriografia, o mapa virá a diversificar-se, e a sua rede de contactos a alargar-se. Foi porém em França que EM faz o seu primeiro e decisivo investimento.
Assim, a França surge na estratégia de EM como a primeira placa giratória para as comunidades médicas e científicas.
Tão cedo estima estar na posse de elementos de prova suficientemente sólidos para iniciar o processo de aceitação da sua arteriografia cerebral, logo decide deslocar-se a Paris com o fito de obter uma primeira avaliação positiva por parte dos seus mestres.
Paralelamente, apresenta comunicações sobre o mesmo assunto na Sociedade de Neurologia - de que Babinski, um dos seus mestres, foi co-fundador - e na Academia de Medicina de Paris.
Só depois da aceitação pelos grandes nomes da neurologia francesa é que, já seguro da situação, comunicou os seus achados em Portugal, em especial à Academia de Ciências e à Faculdade de Medicina[14].
A geografia e a concomitante rede de contactos alarga-se, nos anos seguintes, à Alemanha, Brasil, Inglaterra, Itália, Japão e Suécia. À medida que a angiografia cerebral era replicada e adoptada, os novos contactos sucediam-se, granjeando-lhe prestígio e influência crescentes.
A viagem que decide fazer a Paris imediatamente após ter conseguido, com Almeida Lima, a primeira arteriografia cerebral, decorreu sob forte tensão emocional, mas tal não impediu que tivesse também sido objecto de meticulosa preparação. Tudo leva a crer que fazia parte de um plano longamente amadurecido. Se é certo que afirma recordar-se de inúmeros pormenores que traduz sob a forma de apontamentos paisagísticos, entrecortados por manifestações de enervamento e ansiedade
[Ainda em viagem, já] vagueava por Paris na inquietação dos momentos sempre angustiosos que marcam as grandes exibições.[15]
também é verdade que a agenda de encontros, reuniões e apresentação de comunicações foi cuidadosamente preparada. Além dos encontros prévios com Babinski, por um lado, e Souques, por outro, EM receberá, durante a sua estadia em Paris, o material que pedira a Almeida Lima para lhe enviar de Lisboa, a fim de completar as apresentações programadas. Mesmo em relação ao que poderia parecer menos importante, EM empenha-se com denodo: lembra aos convivas da casa de Babinski que elogiavam desmedidamente um cognac servido após a refeição, que o vinho do Porto possui um paladar e uma textura excepcionais, presenteando-os com uma prova das garrafas que, para o efeito, levara consigo.
Esta atenção aos mínimos pormenores, que tinha em vista a criação de um ambiente favorável à sua aceitação, tal como a excepcional capacidade de planificação, serviam a estratégia delineada por EM que visava 1) o estabelecimento da autoria da arteriografia cerebral (fundamental para mais tarde, em caso de disputa, fazer prova de anterioridade, como foi o caso) 2) a exposição das virtualidades da sua criação perante os seus pares e 3) colocar-se num patamar superior de autoridade científica.
Apesar de nem tudo lhe ter corrido bem no Hospital Necker, quando se tratou da replicar a experiência descrita nas suas comunicações, EM regista em tom proclamatório:
Já podiam agredir-me os médicos patrícios, sempre prontos a amesquinhar o esforço dos conterrâneos e a deitar ao desprezo as conquistas científicas alcançadas no país. Os Mestres parisienses em que confiava tinham julgado em última instância, e a minha obra avultava aos meus próprios olhos como sempre a vira, mas agora com uma solidez que o meu exclusivo critério não era suficiente para lhe dar[16]
Estava claro para EM que, não obstante o valor que o próprio atribuía à sua criação, esta só se viria a consubstanciar numa tecnologia de diagnóstico partilhada e aceite se conseguisse vencer as resistências[17] à mudança (provocadas, em geral, por qualquer inovação) alcançando concomitantemente a indispensável notoriedade com o que ela implica de autoridade, reconhecimento e afirmação.
Praticamente em seguida, é convidado a participar na Semana Médica de Bruxelas, já na qualidade de Presidente da Academia de Ciências de Lisboa e, pouco depois, Aloysio de Castro convida-o oficialmente a visitar o Brasil, onde participará numa série de reuniões, proferindo várias conferências, quer no Rio de Janeiro quer em São Paulo.
Nas suas memórias, a descrição destas viagens é mais sucinta, o nervosismo e a ansiedade vão-se esfumando. Todavia, a boa impressão que deixou entre os colegas brasileiros valer-lhe-á, mais tarde, em retorno, uma activa corrente de opinião favorável à sua nomeação para o Nobel.
De um modo ou de outro, EM estabelece laços sólidos com lugares e pessoas. Dotado de um sentido agudo da diplomacia, potenciada por certo pela sua experiência política anterior, dispõe os seus trunfos metodicamente.[18]
João Lobo Antunes frisa a este propósito que para além da publicação tempestiva de artigos em revistas famosas, de circulação internacional, como a Lancet e o New England Journal of Medicine
Egas Moniz tinha entre os seus colaboradores verdadeiros embaixadores que vão praticar a técnica angiográfica em serviços estrangeiros, como o de Cairns, em Londres, ou o de Olivecrona, em Estocolmo.
Ao arrepio quer da vitimização simplificadora quer da hiperbolização do génio de EM com intuitos panegíricos, uma corrente recente empreendeu uma abordagem aprofundada e descomplexificada acerca do significado e alcance do homem, da obra e dos contextos correlativos[19]. Tiago Moreira, de acordo com um dos pressupostos capitais da corrente teórica em que se inscreve, qualifica o acesso que EM tinha aos meios internacionais como uma espécie de vantagem comparativa:
Director do Serviço de Neurologia do Hospital de Santa Marta e professor de Neurologia Clínica na Faculdade de Medicina de Lisboa (...). Tinha poder e recursos. Tinha relações com um dos centros mundiais da neurologia, França[20]
Da arteriografia à angiografia cerebral e, depois, à leucotomia pré-frontal, EM constitui-se gestor de um dispositivo de produção técnico-científica, disputando a primazia dos seus produtos, publicando, fazendo-se representar quando impossibilitado de se deslocar[21], multiplicando-se em contactos.
Quando, em 14 de Março de 1939, sofreu o atentado, baleado por um dos seus pacientes, o Daily Telegraph noticia a ocorrência, e chovem em Lisboa mensagens de pesar e de inquietação pelo seu estado de saúde. Era óbvio tratar-se já de um cientista de renome. O mapa das suas viagens e pontos de influência posteriores a 1935, ano que marca o II Congresso Internacional de Neurologia de Londres e o início das suas experiências ligadas à leucotomia pré-frontal, consistirá, em parte, numa sobreposição do mapa de influências já consolidado da arteriografia cerebral com o mapa da influência da leucotomia pré frontal. Enquanto a vertente europeia dessa rede de influências é enfraquecida pela emergência da II Grande Guerra, nos Estados Unidos da América, Freeman e Wats adoptam a leucotomia pré-frontal, convertendo-a, depois, na lobotomia e acrescentando, desse modo, um marco decisivo para o reconhecimento público da primazia de EM.
As suas viagens ulteriores, inscrevem-se na mesma senda. Dispensará, nas suas memórias, espaço e atenção diferenciados a cada uma delas - a viagem a Itália, em 1937, por exemplo, entre descrições de sessões de trabalho, cursos, experiências e fruição artística, ocupa mais de dois capítulos das Confidências de um Investigador Científico - mas a sensibilidade para a gestão do dispositivo que montou e de que a sua imagem permanece ex-libris, mantém-se sempre desperta.
Sustentando a existência de um dado equilíbrio entre a importância dos trabalhos de EM e esse savoir faire diplomático que aludimos, João Lobo Antunes estima que
Para uma nova técnica diagnóstica ou uma terapêutica revolucionária serem adoptadas na prática médica corrente, é necessário que, em primeiro lugar, tragam solução a problemas até então por resolver. Mas é também indispensável que elas sejam apresentadas aos poderosos e influentes em cenários apropriados, além de publicadas nas revistas de maior prestígio. Egas Moniz foi um mestre na arte de comunicar ciência.[22]
A nobelização de EM em 1949, constitui, pois, o corolário da carreira científica de um homem atento aos nichos de oportunidade existentes na sua época, na sua profissão, e num espaço mais vasto do que o país onde nasceu. Em todo o caso, alguém “(...) extraordinariamente hábil na luta do mundo”[23]
O enigma periférico, - dado pela discrepância entre um país de baixo potencial científico e a “produção” de um cientista nobelizado - pode, pois, ser desvendado deste modo. Os factores associados à sua inserção na rede internacional que conhecia, valorizava e utilizava, surgem com uma maior capacidade explicativa do sucesso que alcançou, do que as justificadas mas insuficientes alusões ao génio. Sigmund Freud, cuja influência no pensamento do século XX teve um impacto maior e mais abrangente, não ganhou nenhum Prémio Nobel, apesar de, para tal ter sido nomeado várias vezes. Ignorasse EM as circunstâncias em que se começavam a produzir e validar os conhecimentos científicos no primeiro quartel do século XX, e não teria provavelmente sequer conseguido reclamar com êxito a autoria da Angiografia Cerebral, quando a disputou a cientistas alemães e japoneses, pretendendo firmar publicamente a primazia[24]. Faltasse a EM essa habilidade “na luta do mundo” que João Lobo Antunes enfatiza, e ter-lhe-ia provavelmente acontecido o mesmo que a muito outros cientistas que com ele se cruzaram em conferências e congressos: a sombra do esquecimento, independentemente dos respectivos méritos.
Vale a pena, por isso, assestar a observação sobre os elementos de cultura científica que EM propugnava e trazê-los para primeiro plano. A compreensão que no nosso tempo podemos estabelecer acerca das diferentes facetas da sua vida e obra carece da complementaridade do político e do cientista.
EM evoca o período coimbrão em tom quase sempre eufórico. Destaca o bom desempenho académico com um orgulho indisfarçado e salienta tanto a riqueza cultural dos debates variados
Tanto se discutia [na nossa República] a existência de Deus como as doutrinas de Pasteur e mesmo reminiscências de direito romano![25]
quanto as figuras que neles participavam amiúde
Augusto Gil frequentava-a [a nossa República] assiduamente e Afonso Lopes Vieira, que não morava longe também nos visitava[26].
Aí é eleito Presidente da Tuna Académica e nessa qualidade viaja no país e estrangeiro, exercitando-se em contactos e discursos, encantado com as solenidades que rodeavam as visitas oficiais. Gostava de atrair as atenções, de destacar-se, de falar em público, inebriando-se com a tensão estabelecida entre ele e os auditórios. Gostava de sobressair.
O enigma político que impende sobre EM consiste no contraste entre mais de duas décadas de intensa dedicação à política activa, com o parco ou quase nulo lugar a ela reservado nos seus escritos posteriores a 1920.
No dobrar do século XIX para o século XX, EM, casa-se, é eleito deputado pelo Partido Progressista, e prepara, ao mesmo tempo, a sua tese de doutoramento. “A vida sexual”[27]constitui um objecto histórico e cultural da mais alta importância. Exerce influência sobre o pensamento republicano, designadamente em matéria de eugenismo e contracepção; ousa abordar matérias geralmente consideradas tabus e, com o advento do Estado Novo verá a sua circulação proibida, restringida a uma venda selectiva mediante receita médica!
No período que vai do início do novo século até 1908, EM dedica-se simultaneamente à política e à clínica, com algum prejuízo do desempenho académico[28]. Abandona o Partido Progressista e, juntamente com o grupo dissidente de José de Alpoim, aproxima-se de António José de Almeida e dos Evolucionistas. Participa na frustrada intentona republicana de 28 de Janeiro de 1908.
Considerando o contexto político e cultural familiar e a forte componente religiosa da sua educação, EM distanciou-se bastante da mundividência arcaica da sua adolescência. Recordando a intransigência absolutista dos critérios em voga nesses tempos, EM ironizará
Os que não seguem a nossa opinião, seguem sempre, em Portugal, por má estrada! Eu era então deputado progressista, muito avançado para o tempo, na defesa, entre outras aspirações, do ensino laico que estava à cabeça no programa dos liberais mais ousados.[29]
Para enquadrar ideologicamente a sua evolução política - para posições que o próprio reputa de “avançadas” - basta recordar que vinha de um meio “pró legitimista” em que
Os liberais eram apodados de pedreiros livres, malhados, e zurzidos ainda com apóstrofes mais cruéis, pois não havia outra maneira de os atacar[30].
Justificar-se-á mais tarde, no Parlamento, admitindo a sua participação no levantamento republicano mas defendendo-se das acusações de envolvimento na conspiração que conduziu ao regicídio, a 1 de Fevereiro de 1908.
A ditadura de João Franco, com o beneplácito de D. Carlos, isolara-se ao intensificar as medidas de natureza repressiva. Com isso, a causa da República fortaleceu-se, favorecendo a passagem de muitos monárquicos (Progressistas e Regeneradores) para o campo da oposição.
EM estava entre os 93 suspeitos detidos em vésperas do regicídio, ao lado de, entre outros, António José de Almeida, Afonso Costa e Álvaro Pope[31].
Depois de libertado, retoma o seu lugar no Parlamento. Sabe-se que foi iniciado na Maçonaria em 1910[32], mas não há traço de qualquer nota autobiográfica acerca da sua condição maçónica. Com o advento da República, participa activamente na Constituinte, debatendo variadíssimas questões que se prendiam com o ordenamento do futuro sistema de poder. Depois de um curto interregno em que deixa a política activa por considerar não estarem reunidas as condições para vincar a sua autonomia e se exprimir convenientemente, regressa em pleno. Funda o Partido Centrista, reunindo monárquicos dissidentes e republicanos desavindos com o jacobinismo dos “democráticos” de Afonso Costa.
O Partido Centrista dissolver-se-á dando lugar ao Partido Nacional Republicano, pretensamente diferente dos outros partidos, destinado a apoiar parlamentarmente as soluções políticas do sidonismo.
EM assume, pois, as mais altas responsabilidades no decurso do movimento sidonista. Chefe partidário, Ministro dos Negócios Estrangeiros, Presidente da Delegação Portuguesa à Conferência de Paz de Paris.
Após o assassinato de Sidónio Pais, em 14 de Dezembro de 1918, EM permanece ainda algum tempo como Presidente da Delegação Portuguesa e, na qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros, transita para o novo gabinete chefiado por José Relvas.
A conjuntura deixa, todavia, uma pequeníssima margem de manobra aos sidonistas. Acusados pelos sectores republicanos que combateram à ditadura de Sidónio Pais, foi-lhes atribuída a responsabilidade pelo enfraquecimento das instituições republicanas, pelo reforço dos inimigos da república cuja expressão maior foi a instauração da Monarquia do Norte que dividiu o país em dois, com os republicanos ao sul e os leais a D. Manuel II, chefiados por Paiva Couceiro, entricheirados no Porto.
EM terá a este propósito uma intervenção curiosa. Proporá a José Relvas um apelo de D. Manuel à rendição da Monarquia do Norte, contra a amnistia da maioria dos monárquicos. Tal apelo deveria, no entanto, contornar Paiva Couceiro que não estaria disposto a depor as armas.
Os restantes membros do Governo não viram interesse na proposta, desprezando-a[33]. Poucos dias depois, a República fazia içar a sua bandeira, de novo, na cidade do Porto, pondo cobro à Traulitânia dos monárquicos.
Terá sido o estigma sidonista responsável pelo quase silenciamento da sua autobiografia política?
O sidonismo permaneceu uma referência conservadora de laivos saudosistas na política portuguesa. No início dos anos 30, quando o salazarismo se teoriza demarcando-se de outras correntes políticas e ideológicas, assistimos, ainda, a uma rasgada simpatia dos meios mais conservadores pelo sidonismo, mesmo se considerado inferior ao salazarismo pelos novos prosélitos do Estado Novo[34].
EM assiste às transformações políticas que vão ocorrendo sem manifestar publicamente qualquer oposição. Remete-se à clínica e à produção científica. A primeira encefalografia arterial é preparada no decorrer do mesmo ano do movimento militar do 28 de Maio; a primeira leucotomia pré-frontal é levada a efeito na fase de consolidação do salazarismo. Apesar das péssimas condições de que EM se queixará compreensivelmente, o regime fascista dá-lhe um tratamento diferente do que reserva aos que considera seus opositores activos, expulsando-os dos empregos públicos, prendendo-os e forçando-os frequentemente ao exílio.
Contudo, EM não deixou de ser atingido por alguns actos decorrentes do sistema repressivo do regime fascista, nem deixou de confidenciar quanto se opunha à falta de liberdades que caracterizava a vida política.
Após a morte do Marechal Carmona, em 1951, EM foi convidado para candidato à Presidência da República. Um sector, pelo menos, da Oposição Democrática, auscultou-o nesse sentido. EM escusou-se alegando o seu estado de saúde e manifestando a opinião de que, o Almirante Quintão Meireles, merecendo o seu apoio, constituia melhor solução.
Conclusão
Destes episódios tem-se feito, por vezes, uma interpretação excessiva. As forças de oposição ao regime tinham vantagem em arvorarem EM como “seu” ou, pelo menos como um daqueles intelectuais de nomeada perseguidos e maltratados por Salazar. Porém, tal não correspondia ao entendimento tácito e ao apoio, muitas vezes formal, que o regime dispensou a EM, quer patrocinando cerimónias públicas, quer fazendo-o figurar em exposições de âmbito internacional, destacando-o como exemplo das realizações do Estado Novo.
Esse tacticismo a que EM se terá votado em meados dos anos vinte, teria, como contrapartida dos poderes públicos a manutenção de uma “distância calculada”[35] que o próprio ilustra em trechos de carácter autobiográfico relativamente a uma situação já anteriormente aludida. EM fora vítima de um atentado, atingido com cinco tiros de pistola, no consultório da Rua do Alecrim, em 1939. Numerosas entidades nacionais e estrangeiras temeram pela vida do destacado neurologista, então com 65 anos. Após feliz recuperação, EM tenciona agradecer presencialmente a algumas das pessoas que se interessaram pelo seu estado de saúde. Entre eles está o Presidente do Conselho de Ministros. EM faz saber aos serviços da Presidência do Conselho que tenciona lá ir agradecer. Mas apesar do empenho e insistência de EM, Salazar não o chegará a receber...
A propósito, Malheiro da Silva chama a atenção para a forma subtil com que EM omite, relativiza ou enfatiza factos e episódios transcorridos sob o consulado sidonista[36]. As flutuações interpretativas estão patentes em muitos outros textos que produziu, o que faz apelo a um exercício cuidadoso de comparação e avaliação de diferentes fontes.
O debate sobre estes dois enigmas monizianos - o periférico e o político - concita uma informação vasta acerca do período histórico em que EM viveu. Do ponto de vista da pesquisa e da análise histórica, representa um modo estimulante de compreender melhor como eram entendidas a política, a ciência, a arte e a cultura que se vão renovando na passagem do final do século XIX até meados do século XX e, já no início do século XXI, nos interpelam questionando as representações que fomos construindo (adoptando ou recusando) sobre as heranças que nos endossaram.
Seguindo o trilho do enigma periférico, afiguram-se-nos de elevada potência explicativa a aturada estratégia que EM delineou em ordem a firmar a sua notoriedade numa rede de contactos pacientemente estabelecida e mantida, privilegiando a dimensão internacional da sua acreditação como cientista, publicando atempadamente textos decisivos para a atribuição autoral dos feitos que reclamava. Assim se dissolve o enigma periférico ao revelar-se que, exactamente por ter consciência dos limites “naturais” impostos pela condição periférica, EM apercebeu-se desde muito cedo da dimensão política que as actividades científicas encerram. Foi-lhe dado observar, quer como estagiário, quer como responsável de cargos diplomáticos, o contraste entre a acumulação de recursos que existia em França, na Inglaterra e na Alemanha, e a ausência de meios que havia em Portugal. Esse mapa de recursos recobria um outro mapa virtual de credibilidades estereotipadas. E Portugal, como era bem de ver, estava excluído dos dois. Os esforços que fez para tentar soluções vantajosas para Portugal, enquanto Presidente da Delegação à Conferência da Paz de Paris, muitas vezes excedendo o teor das directivas mais sóbrias de Sidónio Pais, confirmaram-lhe que teria de ser enérgico, decidido, e contar com uma forte bateria de aliados para vencer quaisquer obstáculos que se interpusessem entre ele e os seus objectivos. Neste aspecto, EM lança uma estratégia vencedora ao construir a notoriedade científica fora dos limites socialmente desvalorizados da periferia. Permaneceu português, mas os lances decisivos para a sorte do cientista tiveram uma base internacional.
Medindo o terreno histórico e geográfico, entendeu que o seu passado político deveria ser reformulado e relativizado. Quer para efeitos imediatos, numa espécie de coexistência pacífica com o salazarismo, quer a longo prazo, dispensando-se de explicações controversas, enredadas e morosas[37]. O enigma político ajusta-se, assim, à sua firmeza de propósitos: tendo a segunda parte da sua vida sido coroada de reconhecimento e glória, porque não deixar na sombra a primeira?
De um modo ou de outro, foi o que EM acabou por fazer.
Bibliografia
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Notas
[1] Bolseiro da FCT; aluno de Doutoramento da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra; colaborador do CEIS20-Centro de Estudos Interdisciplinares do Século 20.
[2] (Martins, 1998: 63)
[3] (Stolt, 2002:82-3)
[4] (Moniz, 1936)
[5] Walter Rudolf Hess, da Universidade de Zurique. O Prémio Nobel foi-lhe atribuído pela sua descoberta da organização funcional do diencéfalo na coordenação das actividades dos órgãos internos.
[6] (Moniz, 1954)
[7] Dou outros exemplos dessas omissões em texto a publicar brevemente.
[8] (Moniz, 1919)
[9] (Moniz, 1917)
[10] (Moniz, 1949:10)
[11](Moniz, 1949:20)
[12] (Idem, 1949: 18)
[13] (Ibidem: 69)
[14] (Fernandes, 1983)
[15] (Moniz, 1949: 66)
[16] (Moniz, 1949: 91)
[17] Tiago Moreira chama a atenção, a justo título, para a circunstâncias em que decorreu a primeira tentativa de replicação da arteriografia cerebral no Hospital Necker, considerando-as “primeiras resistências”, o que no quadro da ANT – Actor Network Theory, constitui uma fase incontornável na realização de qualquer inovação tecnológica. (Moreira, 1997).
[18] “[EM] conseguiu quase sempre concretizar os seus projectos, mas foi esta vontade audaz, a capacidade argumentativa, o sentido da oportunidade e a perícia diplomática que lhe permitiram desenvolver os trabalhos de investigação e divulgá-los internacionalmente”(Roque, 2002, 133)
[19] É de elementar justiça referir, para além dos textos já citados, os trabalhos de Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, autores de extensa bibliografia sobre Egas Moniz, vida e obra; de António Fernando Cascais, de Helena Roque e Tiago Moreira, entre muitos outros.
[20] (Moreira, 1997, 10)
[21] (Saldanha, 1974: 7)
[22] (Lobo Antunes, 1999: 6)
[23] (Lobo Antunes, 1999: 7).
[24] “(…) Egas Moniz disputava a reivindicação da primazia da utilização da técnica angiográfica aos japoneses Makato Saito (que aliás visitou Egas Moniz em Lisboa) Kazerniro Kamikawa e Hydioski Janagisawa, em 1931, e aos alemães Loeher e Jacobi, em 1932-33, a que Egas Moniz se refere nos termos mais ásperos. Esta última disputa foi dirimida a favor de Egas Moniz ao mais alto nível da comunidade neurocirúrgica alemã, com recurso ao arbítrio de um dos mais eminentes nomes da neurologia alemã, Nonne.” (Cascais, 2001: 311)
[25] (Moniz, 1950: 305)
[26] (Idem: 305)
[27] (Moniz, 1932)
[28] (Pereira e Pita, 2003: 103-6)
[29] (Moniz, 1950: 255)
[30] (Ibidem: 69)
[31] Cfr.. (Veríssimo Serrão, 1995: 128)
[32] “Foi iniciado em 1910 na Loja Simpatia e União, de Lisboa, com o nome simbólico de Egas Moniz” (Marques, 1986: 995)
[33] (Relvas, 1977: 102-3)
[34] Ver, por exemplo, (Gomes, 1933:1)
[35] A expressão é de António Lobo Antunes. Ver (Antunes, 1999: 32)
[36] “A trilogia escrita pelo próprio biografado facilita o trabalho e complica-o bastante ao ponto de desmotivar a busca árdua e exigente de fiabilidade dos depoimentos legados. E este efeito perverso agrava-se no caso específico de Egas Moniz por causa do seu espírito positivista e cientista escrupulosamente assumido e praticado, mas sempre com o subterfúgio do silêncio quando certas situações vividas esbarravam no crivo do seu juízo moral e social”. (Malheiro da Silva, 2000: 238-9)
[37] A propósito da intentona republicana de 28 de Janeiro que alguns autores ligam ao regicídio ocorrido poucos dias depois, Veríssimo Serrão, por exemplo, recorda que os que nela tomaram parte “Por alguma razão foram depois chamados ‘buissidentes’. Tendo aderido à República, não deixaram alguns deles de lamentar as circunstâncias em que ocorreu o Regicídio, numa forma que, mesmo sincera, foi de tardio arrependimento.” (Serrão, 1995: 130)
[38] Publicado na revista VÉRTICE nº 119, (pp. 57-74), Lisboa, Setembro -Outubro, 2004
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